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Entrevista: Ajay Kochhar, CEO Li-Cycle: “Carros elétricos criarão tsunami de baterias nos próximos anos”

Fundador e CEO da Li-Cycle, Kochhar traça panorama sobre o impacto das baterias nos próximos anos e como o problema pode ser resolvido de forma sustentável

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Ajay Kochhar, CEO da Li-Cycle, fundou a startup para tornar problema do descarte de baterias íon lítio negócio lucrativo ao fornecimento matérias-primas sustentáveis à economia global – Foto: Divulgação Li-Cycle

Baterias são tema quente na mobilidade elétrica. Desde a preocupação para obter matérias-primas até a destinação ao fim da vida útil. Aspectos por sinal aproveitados por algumas vozes para questionar a real sustentabilidade dos veículos elétricos.

O tema ganha relevância sob a luz do aumento exponencial dos veículos elétricos previsto para os próximos anos. Perspectiva que fora do prisma da preocupação, transforma-se em enorme oportunidade àqueles capazes de solucionar o problema e convertê-lo em negócios.

Precisamente a proposta da canadense Li-Cycle. A startup fundada em 2016 desenvolveu tecnologias para recolocar materiais na cadeia de produção baterias. Num processo com poucas emissões e escalável. Capaz de substituir parcialmente a mineração como fonte de matérias-primas.

Li-Cycle já está operacional. E acelerando como negócio, conforme demonstra o início do processo para listagem na Bolsa de Nova York. A startup afirma possuir um dos caminhos para a mobilidade elétrica atingir a tão almejada sustentabilidade circular.

Para conhecer como Li-Cycle entrega tal visão e traçar panorama geral sobre reciclagem de baterias de veículos elétricos, Zev.News ouviu Ajay Kochhar, CEO e cofundador da Li-Cycle.

Zev.News – Ajay, qual sua experiência antes de fundar a Li-Cycle?

Ajay Kochhar – Eu e Tim (Johnston), cofundador e presidente executivo da Li-Cycle, viemos da indústria química e de metais para baterias. Trabalhamos juntos na Hatch, uma empresa global multidisciplinar de gerência, engenharia, desenvolvimento e consultoria. Lá éramos focados em fábricas de químicas e hidrometalurgia para produção de metais para baterias.

Zev.News - E o que o levou a pensar: “Certo, há um problema enorme e crescente, e acredito que possa fundar uma startup para resolvê-lo?

Kochhar – Na Hatch notamos enorme buraco na economia global, cada vez mais eletrificada. Conhecíamos a indústria, e conhecíamos o problema. E, o mais importante, sabíamos como desenvolver uma solução que mudaria o jogo. Essa foi a razão pela qual há cinco anos deixamos a empresa para fundar a Li-Cycle. O objetivo era responder questões que todos estavam se perguntando: “O que vai acontecer com todas essas baterias íon lítio? E, antes disso: “O que vai acontecer com as sobras do processo de fabricação?”

Zev.News – E quais as repostas para essas perguntas?

Kochhar – Resolver o problema global de sobras de fabricação de baterias e das baterias ao fim da vida útil. Ao mesmo tempo criar uma cadeia de fornecimento de matérias-primas para garantir um futuro sustentável ao planeta. Vimos oportunidades na indústria das baterias de lítio por duas razões:

Primeiro, o processo atual para obter matéria-prima é insustentável. Segundo, o processo tradicional (de reciclagem) utiliza altas temperaturas, que não apenas desperdiça aproximadamente 50% dos materiais, mas também é danoso ao meio ambiente. Por isso desenvolvemos nosso Spoke & Hub Technologies™. Que de modo único utiliza baixas temperaturas e líquidos químicos, que reduzem custos e maximizam lucratividade e as taxas de reciclagem. Nosso processo não desperdiça água, não emite poluentes diretamente, e é o mais energeticamente eficiente comercialmente disponível.

Zev.News – E qual a visão futura destas respostas?

A visão é alternativa à mineração. Economicamente e ambientalmente mais sustentáveis. Resultando em baterias mais baratas e produtos finais mais acessíveis. Por meio de soluções como a nossa, materiais não precisam ir para aterros. Podem ser eficientemente reciclados.

Zev.News - Pode explicar como funciona o processo de reciclagem da Li-Cycle?

Kochhar – Li-Cycle descobriu como reutilizar materiais recuperados para fabricar novas baterias. De modo circular e sustentável. Tecnologia já comprovada no mercado norte-americano. Nosso Spoke & Hub Technologies™ emprega um modelo de dois estágios, utilizando baixa temperatura e soluções líquidas químicas, que além de mais barato comparado ao derretimento térmico, possibilita recuperar 95% dos materiais, taxa sem paralelos.

O primeiro estágio são os trituradores (Spoke), no qual as sobras de fabricação de baterias e as baterias em fim de vida útil são convertidas em produtos intermediários. Inclusive “massa negra”. Que é um pó contendo materiais como lítio, cobalto e níquel (matéria-prima para baterias). As instalações podem processar quaisquer baterias de íon lítio. Das menores às baterias de carros elétricos. Ou até maiores.

Nos trituradores, produzimos três produtos-chave: alumínio e cobre picados, que é o metal associado às baterias íon lítio, e uma mistura plástica de baixa densidade. Ambos têm mercados secundários. Para os quais podemos vender. O terceiro elemento é o mais importante: a massa negra. Que será fornecida aos nossos futuros centros de processamento Hubs). Nos centros processaremos a massa negra e as sobras da fabricação de baterias por meio de um circuito hidrometalúrgico. Para assim produzir materiais valiosos, como carbonato de lítio, sulfato de cobalto e sulfato de níquel. Que poderão voltar à economia.

Zev.News - Li-Cycle recicla todos os tipo de baterias de íon lítio. Porém, de acordo projeções da startup, em 2025 as baterias de veículos elétricos serão a principal fonte. Quais as diferenças na reciclagem de baterias de veículos elétricos comparado aos dispositivos eletrônicos, por exemplo?

Kochhar – As baterias de carros elétricos serão a maior fonte de reciclagem, impulsionadas pela revolução ocorrendo globalmente. A venda global de veículos elétricos foi de aproximadamente 2.5 milhões em 2020. A projeção é chegar a 9 milhões em 2025. E 26 milhões em 2030. As baterias de veículos elétricos são bastante pesadas. Com aproximadamente 250 quilos de material valioso. E criarão um tsunami de baterias em fim da vida útil nos próximos anos. O mundo precisa estar preparado para reciclagem eficiente. É onde entra Li-Cycle. Quando se trata da reciclagem de baterias de veículos elétricos, os maiores desafios são o risco termal das baterias (lítio é inflamável), as dimensões e a quantidade (haverá muitas). O que levanta a questão da escala. A tecnologia da Li-Cycle é bem equipada para lidar com baterias e superar quaisquer desafios relacionados à reciclagem de baterias.

Para o processamento de baterias íon lítio, nossos trituradores funcionam a baixa temperatura, e picotam as baterias submersas numa solução proprietária, que reduz o risco térmico e evita emissões nocivas. Isso nos confere capacidade para reciclar baterias de veículos elétricos com segurança. Quanto ao tamanho, nossos trituradores são equipados para processá-los. Nossa planta recentemente anunciada em Phoenix (Arizona) é projetada para processar os conjuntos de baterias de carros elétricos sem nenhuma desmontagem. Hoje, ainda as desmontamos minimamente.

Zev.News – Mas ainda há outra questão, o mencionado “tsunami de baterias”...

Kochhar – Como planejamos lançar 20 plantas de trituração (Spokes) e quatro centros globais (Hubs), isso resultará na capacidade de processar, respectivamente, 105 mil e 240 mil toneladas cúbicas de baterias íon lítio ao ano. Isso equivale anualmente as baterias de 210 mil carros elétricos em nossos trituradores, e massa negra e sobras de baterias de aproximadamente 720 mil veículos elétricos em nossos centros. Claramente, estaremos preparados para o fluxo.

Zev.News – Você também mencionou algumas vezes um ponto curioso. E que talvez boa parte dos nossos leitores não tenha conhecimento: sobras de materiais durante a produção de baterias. Como este aspecto será impactado pelo crescimento dos carros elétricos?

Kochhar – Quando se produz baterias há um taxa de sobras e rejeitos, tipicamente 5 a 10%. Mas independentemente da porcentagem de desperdício na produção, um aspecto é certo: num futuro imediato, será o principal fator para crescimento na reciclagem de baterias. Antes do tsunami de baterias em fim de vida útil. Conforme aumentam os números de fábricas de baterias, aumentará proporcionalmente o volume de sobras. A revolução dos veículos elétricos está turbinando o crescimento das sobras. Por isso é imperativo a reciclagem de baterias crescer atrelada a este aumento exponencial. Fabricantes de baterias podem ver as sobras como desperdício, mas Li-Cycle as vê como enorme oportunidade de negócio. Oportunidade que entrega valor aos nossos clientes. Não vamos apenas resolver apenas o problema das sobras, vamos torná-las valiosas ao retorná-las à cadeia de fornecedores e à economia global.

Zev.News - Além das imposições governamentais, indústria e consumidores hoje consideram a origem da matéria-prima nas decisões de contratos e compras. Isto é, não se trata mais apenas de escolher o menor preço. Porém, preço ainda é fator importante. Hoje, qual a diferença no preço da matéria-prima extraída da natureza comparada à reciclada? E qual a projeção para os próximos de 5 a 10 anos.

Kochhar – Li-Cycle é fonte para materiais críticos e estratégicos: lítio, níquel e cobalto. Apenas para citar alguns. Estamos no epicentro de três mudanças rápidas, gigantescas e críticas à economia de carbono zero: a revolução dos veículos elétricos, a escassez local de matéria-prima e a necessidade de reciclagem sustentável. E considerando o vento favorável proporcionado pelo aspectos governamentais, associado à escassez de matéria-prima, somos mais baratos do que qualquer mineração.

Hoje reciclar é imperativo à cadeia de matéria-prima. E a necessidade só vai aumentar nos próximos 5 a 10 anos. E um aspecto importante não pode ser negligenciado: os materiais usados nas baterias de íon lítio são finitos. Vamos esgotá-los se não tivermos cuidado. Você pode imaginar como isso ameaça os preços nos mercados. Li-Cycle é um negócio com uma solução patenteada já operacional, e estamos preparados para crescer conforme nossos clientes continuam crescendo, eletrificando veículos e ampliando a aplicação de baterias.

Zev.News - A primeira geração de veículos elétricos chegou às ruas há poucos anos. Então, proporcionalmente ao crescimento da produção, ainda não há tanto material disponível desta fonte para reciclagem. Qual a sua visão sobre o cenário?

Kochhar – Embora a quantidade imensa de baterias em fim vindas dos veículos elétricos ainda não tenha atingido o mercado, ainda há hoje enorme quantidade de baterias que precisam ser recicladas. Em 2020, 456 toneladas cúbicas de íon e lítio estavam disponíveis para reciclagem. Esse número crescerá para 1.3 milhão em 2025. E para 2.6 milhões em 2030. É importante manter em mente que mesmo o melhor processo de fabricação produz sobras demandando reciclagem numa taxa atrelada à eletrificação.

Não há apenas atraso no volume de reciclagem por conta da proliferação de baterias de íon lítio e dos carros elétricos. Há na verdade muito material disponível para ser reciclado hoje. Isso antes do tsunami de baterias ocasionado pelos veículos elétricos que chegaram às ruas há alguns anos ou estão em circulação.

Zev.News – Ajay, para fechar: quão operacional Li-Cycle é hoje. E quais os objetivos para os próximos 5 a 10 anos?

Kochhar – Estamos totalmente operacionais. Hoje temos duas plantas de trituração em Kingston (Canadá) e Rochester (Nova York). Recentemente também anunciamos planos uma terceira planta de trituração, em Phoenix, Arizona. Próxima ao que se tornará um núcleo de geração de baterias em fim de vida útil. Temos mais de 40 contratos comerciais com fornecedores de chips e acordos com as maiores fabricantes de veículos e de baterias para veículos elétricos. A estrada é promissora. Recententemente, iniciamos a fusão com SPAC Peridot Acquisition Corp. E uma vez finalizada a transação, nos tornaremos uma empresa listada na Bolsa de Nova York (LICY). O capital nos permitirá continuar crescendo, conforme planejamos lançar 20 estações de trituração e 4 centros globais até 2024. É apenas o começo. Estou ansioso para os próximos marcos, trabalhando para um futuro sustentável.

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